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sábado, 28 de abril de 2012

Sentado e sorrindo aos pés da cruz vazia

Eu fazia Teatro. Encenei Maria Madalena sendo apedrejada e, ao final da apresentação, recitei esse belíssimo texto, no qual me emociono até hoje: Um dia eu vou tirar os cravos Que prenderam suas mãos, seus pés: Do medo vou deixar de ser escravo. Vou fazer o que der na telha E, com o coração em centelha, Vou tirá-lo daí com muita fé. Vou lhe fazer um bom curativo, Colocando remédios e panos, -Tirando as dores que, há mais de dois mil anos, Em seu corpo mora. E, quando você estiver materialmente vivo, Vou lhe dar roupas que se usam agora. ...Depois vamos pelas ruas, pelos jardins, Não vou lhe contar meus problemas, Pois você já sabe antes de mim. Vamos conversar sobre outros temas, Que juntos nunca falamos então: Vamos falar sobre moda ou futebol, Sobre alpinismo ou televisão, Sobre o tempo: se faz chuva ou sol. Vamos falar sobre o Corinthians, Que há tanto tempo não é campeão. Depois vamos jogar xadrez, Vamos jogar dominó ou dama E não pense nenhuma vez Em botar pijama e ir para a cama... Vamos sair novamente, Passear entre nossa gente. E assim batermos um longo papo. Saberei qual sua cor preferida, Saberei se tem receio de cobra ou sapo, Saberei se prefere rosa ou margarida, Se gostas mais de paralelepípedo ou asfalto, Saberei se sua voz é rouca, Se fala baixo ou alto. Se sua gesticulação é muita ou pouca. Você vai se cansar das perguntas minhas. vai falar, falar prá chuchu: "-Por que é branca a pombinha? Por que é preto o urubu"? Depois de matar as curiosidades, Já terá vindo a madrugada. aí entrarei na intimidade E lhe contarei algumas piadas. Piadas gozadas, Selecionadas, Só prá você. E você vai ver Que uma intenção aqui existe: Eu farei você descer da cruz, Porque você anda muito triste. Jesus! Pelo amor de Deus, Não sofra mais pela humanidade! Um dia ela toma jeito. Juro que digo a verdade. O que eu não consigo É sempre ver um amigo, Um amigo do peito, tão tristonho, solitário... ...Então vou deixar de lado meu rosário Vou lhe contar minhas piadas e seus lábios, que abrir ninguém se atreve, se abrirão num sorriso, numa risada. Aí não vou querer mais nada, Poderei morrer ainda que breve, Por que desde criança eu sempre quis Ver Cristo bem feliz, Cristo em completa alegria, Sentado e sorrindo aos pés da cruz vazia. ( Neimar de Barros)

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