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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

02/11/2011 - Dia de Finados


Fui ao cemitério com minha irmã e minhas filhas. Sou muito observadora e crítica e pude perceber de como o ser humano é um ser mutante. Lembro-me de quando era criança e que minha mãe brigava conosco, eu e meus irmãos, quando falávamos alto ou se saíssemos à correr. Era um lugar de paz e respeito. Achava eu, na minha imaginação infantil, que poderia "perturbar" alguma alma e, se ela se sentisse aborrecida, poderia puxar meus pés na madrugada...
Esse conceito não existe mais. Fiquei admirada na entrada da necrópole com uma tenda de recreação para as crianças, mesas com corretores a vender os "lotes" para famílais, um viveiro com aves, lago com peixes e jardim japonês. Muita descontração e certa alegria no ar. Poderia imaginar que estávamos a visitar um empreendimento imobiliário se não fosse as flores e o cruzeiro iluminado com as velas.
Olhando sob esta perspectiva, não se existe mais aquele medo da morte. Aquele tabu de nem se tocar no nome "dela". Nem se levava crianças para não assustá-las ou para se safar de algumas perguntas que só a curiosidade/igenuidade infantil é capaz de formular. Mas, por outro lado, se tornou também uma grande oportunidade comercial. Antes de chegar ao portão principal, notava-se as barracas improvisadas vendendo flores, velas, fósforos, água, sorvetes, sanduíches, guloseimas...
Pedi para minha irmã me fotografar em alguns lugares. Minhas filhas riram e fizeram piada: "Colocar no Facebook, mãe?" Sim. Colocarei não só no Facebook como fiz pose, caras e bocas. Sempre me senti bem em cemitérios. Sempre gostei de caminhar por entre os gigantescos túmulos de família, ler suas lápides e olhar suas fotos. Pena que os mais modernos, os estilo jardim, não nos ofereça essa curiosidade mórbida.
Eu mesma desejo ser cremada. Já me informei sobre a cerimônia, música e até o buffet que poderá ser servido. Não quero flores e muito menos velas. Prefiro o aroma dos incensos. Claro que tenho de deixar tudo previamente organizado e também já deixei bem claro a minha família que sou doadora de órgãos. Depois de tudo devidamente retirado, o que sobrar do meu corpo, desejo que me coloquem nua na urna, cubra-me com um manto branco, faça a cerimônia e depois o forno. As cinzas podem ser misturadas a terra e se tornar um bom adubo natural.
Sempre fui muito desapegada materialmente. Sempre valorizei o SER. Espero que lembrem-se de mim assim. O que fui.